MASSACRE NA AUSTRÁLIA
Tenho tido a oportunidade de correr num carro de F1 no circuito de Melbourne. Um circuito lindo situado perto de uma reserva natural protegida. Como queria ganhar a corrida tinha de me empenhar a sério mas também queria observar e disfrutar da paisagem. Estes dois objectivos são incompatíveis porque para se ganhar uma corrida é necessário ser rápido e quando se é rápido não se tem tempo para olhar para o lado.
A maneira como resolvi o problema foi genial porque ganhei a corrida e fiz uma corrida muito demorada. Eis como resolvi este problema.
É sempre bom fazer uma partida de F1. Todos juntos. Os motores a roncar cada vez mais alto até que todas as cinco luzes vermelhas se apagam e lá vamos nós a tentar ganhar o maior número de lugares possíveis aos nossos adversários. Até à primeira curva, até à segunda teve piada depois comecei a ficar para trás, talvez porque o carro estivesse pesado com muita gasolina. Os tipos da estratégia não me dizem nunca nada.
Sabendo que estava com um carro pesado demais empenhei-me a duzentos por cento e fiz um peão não sei bem onde e o carro parou enfim no asfalto, sem bater em nada. Continuei então mais determinado do que nunca até que me surgiu em frente todo o pelotão. Uns após os outros todos se renderam à minha superioridade e ainda guardo a recordação do carro do Eddie Irvine dividido a meio no meio da pista. Foi uma colisão cheia de energia para dividir aquilo em dois. Foram precisas três voltas para tirar toda a gente de prova. No fim fiz muitas mais voltas do que era preciso mas ganhei a corrida.
terça-feira, dezembro 09, 2003
segunda-feira, dezembro 08, 2003
SOL
Já tenho saudades de sol ao fim de semana. De calor já compreendo que não é tempo dele já ou não é tempo dele ainda. Sei que não faz muito sentido ficar indisposto com os humores meteorológicos mas isso é racionalidade. De facto se houvesse um responsável por este tempo imutável eu já teria imagiado alguma alma caridosa a esmurrar o camarada.
Já tenho saudades de sol ao fim de semana. De calor já compreendo que não é tempo dele já ou não é tempo dele ainda. Sei que não faz muito sentido ficar indisposto com os humores meteorológicos mas isso é racionalidade. De facto se houvesse um responsável por este tempo imutável eu já teria imagiado alguma alma caridosa a esmurrar o camarada.
terça-feira, dezembro 02, 2003
DIÁRIO DE BORDO
Querido diário, estamos no sétimo ano de viagem espacial. A tripulação morreu toda e o primeiro sinal de loucura neste texto é o facto de ter usado o plural na primeira frase.
As actividades programadas vão sendo mais ou menos feitas mas a distância ao Planeta que me viu nascer é impossível de sentir. Nem as fotografias, nem os sons da Terra me fazem sentir calmo.
Há um ano e pouco que devia ter chegado ao destino mas alguma coisa se passou mal na viagem. Talvez o giroscópio da nave esteja a funcionar mal. Ou então alguma coisa no software de navegação não esteja correcta. Não consigo perceber o que se passou de errado. As análises que fiz das opções tomadas parecem-me agora e sempre me pareceram as mais adequadas. A distância enorme impede-me de voltar para trás porque sinto-me mais próximo do fim do que do início embora o apelo do início me seja muito tentador. Mas o tempo não anda para trás e é para a frente que tenho de olhar.
Talvez o facto de ser o único sobrevivente seja uma tortura e não garanto que tenha ainda saúde mental. As comunicações à distãncia não correm muito bem e ninguém na Base me parece compreender. É difícil de transmitir o que sinto da maneira que sinto pois sou só eu a sentir. Nunca como agora percebi o sentido da frase NO MAN IS AN ISLAND.
Um dia um homem chegou ao terraço de um arranha céus e mandou-se para o chão. No caminho para a morte ouviu um telefone a tocar e arrependeu-se do que fez. Alguém que alguma vez venha a ler esta mensagem consegue perceber porquê?
Embora tente manter a sanidade não acho que seja possível porque um ser humano é uma um ser relacional e não pode viver isolado.
As outras naves que partiram na mesma missão em que eu parti não mandam notícias. Acho que a Base me oculta o seu sucesso e me tenta dopar com a ignorãncia até eu desaparecer no infinito do espaço.
Quando imagino se as coisas podem ficar piores imagino que ficarem piores é tudo continuar igual.
Querido diário, estamos no sétimo ano de viagem espacial. A tripulação morreu toda e o primeiro sinal de loucura neste texto é o facto de ter usado o plural na primeira frase.
As actividades programadas vão sendo mais ou menos feitas mas a distância ao Planeta que me viu nascer é impossível de sentir. Nem as fotografias, nem os sons da Terra me fazem sentir calmo.
Há um ano e pouco que devia ter chegado ao destino mas alguma coisa se passou mal na viagem. Talvez o giroscópio da nave esteja a funcionar mal. Ou então alguma coisa no software de navegação não esteja correcta. Não consigo perceber o que se passou de errado. As análises que fiz das opções tomadas parecem-me agora e sempre me pareceram as mais adequadas. A distância enorme impede-me de voltar para trás porque sinto-me mais próximo do fim do que do início embora o apelo do início me seja muito tentador. Mas o tempo não anda para trás e é para a frente que tenho de olhar.
Talvez o facto de ser o único sobrevivente seja uma tortura e não garanto que tenha ainda saúde mental. As comunicações à distãncia não correm muito bem e ninguém na Base me parece compreender. É difícil de transmitir o que sinto da maneira que sinto pois sou só eu a sentir. Nunca como agora percebi o sentido da frase NO MAN IS AN ISLAND.
Um dia um homem chegou ao terraço de um arranha céus e mandou-se para o chão. No caminho para a morte ouviu um telefone a tocar e arrependeu-se do que fez. Alguém que alguma vez venha a ler esta mensagem consegue perceber porquê?
Embora tente manter a sanidade não acho que seja possível porque um ser humano é uma um ser relacional e não pode viver isolado.
As outras naves que partiram na mesma missão em que eu parti não mandam notícias. Acho que a Base me oculta o seu sucesso e me tenta dopar com a ignorãncia até eu desaparecer no infinito do espaço.
Quando imagino se as coisas podem ficar piores imagino que ficarem piores é tudo continuar igual.
segunda-feira, dezembro 01, 2003
FRIO
Está. Chuva, granizo. O céu está cinzento. O País está cinzento e nem o sorteio do Euro consegue animar as almas.
O Outono já passou e veio de vez o Inverno.
Por aqui, neste aborto subúrbio deserdado de cidade ainda se sente mais este cinzentismo. Lá ao longe o clarão de Lisboa descrimina ainda mais este isolamento.
Isto não é o Inferno. O Inferno é um lugar quente, vermelho, cheio de diabas a dançar tecno armadas com garfos e a beber alcool. Isto é a embaixada do Céu na Terra. Uma paz de cemitério por vezes insuportável. Aqui, o silêncio faz um barulho intolerável no meu ouvido. Tenho vontade de fugir daqui para fora para lugar nenhum.
Está. Chuva, granizo. O céu está cinzento. O País está cinzento e nem o sorteio do Euro consegue animar as almas.
O Outono já passou e veio de vez o Inverno.
Por aqui, neste aborto subúrbio deserdado de cidade ainda se sente mais este cinzentismo. Lá ao longe o clarão de Lisboa descrimina ainda mais este isolamento.
Isto não é o Inferno. O Inferno é um lugar quente, vermelho, cheio de diabas a dançar tecno armadas com garfos e a beber alcool. Isto é a embaixada do Céu na Terra. Uma paz de cemitério por vezes insuportável. Aqui, o silêncio faz um barulho intolerável no meu ouvido. Tenho vontade de fugir daqui para fora para lugar nenhum.
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